24.1.07


AVALIANDO CLARICE LISPECTOR
EM “LAÇOS DE FAMÍLIA” NO CONTO “UMA GALINHA”
FORTALEZA, JANEIRO DE 2007

SUMÁRIO

1. PERFIL BIOGRÁFICO
2. CONTEXTO HISTÓRICO E SÓCIO-CULTURAL
3. ENREDO DE “UMA GALINHA”
4. ELEMENTOS ESTILÍSTICOS E TEMÁTICOS
5. CONCLUSÕES E HILAÇÕES
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. PERFIL BIOGRÁFICO

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 10 de dezembro de 1925. Filha de pais judeus, era a mais nova de três filhas. Nos primeiros meses de vida veio com sua família para Alagoas. Passou a infância e parte da adolescência no Recife, tendo sua mãe falecido quando ela tinha apenas nove anos de idade.
Em 1937 mudam-se para o Rio de Janeiro. Estuda Direito e trabalha como professora de português, depois como jornalista e tradutora. Escreve freqüentemente para revistas e jornais. Casa-se com o diplomata Mauri Gurgel valente em 1943, um ano após iniciar seu primeiro romance “Perto do Coração Selvagem”. Em 1944 o publica e vai residir com seu marido no Pará. Logo passa a acompanhar seu marido em suas missões diplomáticas pela Europa e EUA. Vão morar em Nápolis (Itália), depois em Berna (Suíça), e em 1953 em Washington. Seus filhos Pedro e Paulo nascem em 1948 e 1953, respectivamente. Separa-se do marido e retorna ao Brasil definitivamente em 1959.
“O Lustre”(1946) e “A Cidade Sitiada”(1949) são duas de obras que lembram Emma Bovary, a personagem de Gustav Flaubert no livro Madame Bovary. Publica “Laços de Família” em 1960 e conquista leitores fiéis e entusiastas (os claricianos), principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Em “Laços de Família” delineiam-se os mais freqüentes perfis das personagens de Clarice (especialmente o papel da mulher dona-de-casa), contratando com as personagens dos romances: mulheres de profissões bem definidas e de vida privada moderna, urbana e ater certo ponto liberal.
Sempre envolvidos na própria subjetividade, as personagens de “Laços de Família” exprimem uma temática marcadamente existencial. Envolvidos na teia familiar, por trás do cotidiano, os protagonistas vislumbram o advento de uma mudança na linha de seus destinos e papel social.
O desempenho feminino no seu papel de dona-de-casa, onde ela define e cria sua identidade própria, trás um olhar que aponta para o detalhe. Diante dos limites da casa, os pormenores adquirem uma nova dimensão e colhem pensamentos e sentimentos que demonstram o desejo de viver e verificar a consistência da vida.

“O livro aponta para o metafísico”
(Vera Moraes, O Povo, 24/12/06)

Para exprimir esta subjetividade seu estilo no uso do ‘monólogo interior’ e do ‘discurso indireto livre’ se fazem fundamentais.

Em 1961 publica “A Maça no Escuro” e ganha prêmios enquanto ocupa deu tempo trabalhando para o jornal Correio da Manhã e para as revistas Manchete e Fatos e Fotos.
Em 1967 um cigarro aceso enquanto dormia provoca um incêndio e queima seus braços e pernas, afetando alguns de seus movimentos interferindo inclusive em sua assinatura. Inicia um processo de auto-isolamento doméstico enquanto sua popularidade crescia.
De 1967 a 1973 publica crônicas semanais no Jornal do Brasil. Trabalha simultaneamente em seus dois últimos livros (“A Hora da Estrela” e “”) e vêm a falecer de câncer na véspera do seu 52º aniversário em 9 de dezembro de 1977 no Rio de Janeiro.


2. CONTEXTO HISTÓRICO E SÓCIO-CULTURAL

Metáforas insólitas (incomuns), onomatopéias, personificações (de objetos e animais), etc... Ousadias lingüísticas que contrastavam com o realismo documental do momento histórico que caracterizava a década de 1940, o Modernismo e suas expressões regionalistas e realistas.
Desvios dos estilos e das formas narrativas comuns, mudanças no manejo das palavras, na sintaxe das frases e a tentativa de ‘recriação’ do uso da língua portuguesa, variando entre a originalidade e a falta de estrutura ficcional.

“Sua escrita quer alcançar o cerne, o núcleo, o centro das coisas”
(Yudith Rosenbaum, O Povo, 24/12/06)

Ela cria novos torneios sintáticos, novo sentido aos vocábulos, sempre de alguma forma questionando as formas de expressão, culminando nas epifanias: aquele momento da revelação da totalidade, do indizível, entre a banalidade do dia-a-dia. Sua ‘ousadia expressional’, como afirmou Antonio Cândido, revela em sua produção literária a tentativa de definir o perfil da mulher, tendo até sido associada ao movimento feminista – fato visto atualmente como um equívoco.
Enquanto buscava afirmar sua identidade como escritora declarou-se “na verdade, uma dona-de-casa que criava os filhos com uma máquina de escrever no colo”. Tratava em suas obras de temas existenciais e intimistas, conflitos emocionais, revelações psíquicas, etc. De caráter introspectivo e intenso, abusando no uso do ‘discurso indireto livre’, do ‘fluxo de consciência’, no ‘instante-já’ e na ‘onisciência seletiva’, Clarice tornava-se centro de acusações de ‘alienada’ e ‘desengajada’.
Nesta mesma década, o presidente americano John Kennedy é assassinado (1963), os militares tomam o poder no Brasil (revolução de 1964), Glauber Rocha filma “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1963) e “Terra em Transe” (1967); O presidente Médici extingue a UNE em 1968; Caetano Veloso e Gilberto Gil promovem a união das culturas mundiais com o ‘Tropicalismo’ e a aceitação da influência norte-americana; Publica em 1969 o curioso e polêmico romance que começa depois da vírgula e finaliza com dois pontos “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. Os jargões ideológicos e as soluções pueris dão ao romance uma atmosfera sócio-política característica resultando numa obra “irregular e desajeitada” (Guidim,1998). Tornou-se a única obra da autora com final feliz.
Em janeiro de 1977 concede a única entrevista que fez à televisão. Escreve durante este ano suas ultimas obras ao mesmo tempo: “A Hora da Estrela”, “Um Sopro de Vida” e os contos “A Bela e a Fera” e “Um Dia a Menos”.
Os romances apresentam estruturação semelhante, mas suas personagens são antíteses. Tal oposição coloca os dois romances como espelhados. Seu ato de escrever esteve sempre oscilando, flutuando entre os gêneros literários formais (romance, conto, crônica...) e a ambigüidade.
Principalmente nas suas últimas obras, a tentativa de hermetizá-los num gênero específico é irrelevante. Sua escrita subverte a linguagem numa narrativa contemporânea de estruturação inovadora e a-histórica.
Contra a rígidas da forma Clarice escreve algo de anti-dogmático, palavras que dizem ora uma coisa, ora outra:

“É uma escrita à deriva, maleável, inquieta, transformadora”
(Castello, 1998)


3. ENREDO DE “UMA GALINHA”

Neste conto Clarice não usa seus recursos lingüísticos mais comuns, explorando levemente a onisciência seletiva. Narrado em terceira pessoa, ela vai descrevendo o que deveria ser os últimos momentos de uma galinha doméstica. Com uma comicidade aflorada, Clarice relata o momento em que a família iria dar inicio ao preparo do almoço cujo prato principal era, justamente, a galinha.
Mas surpresa geral a galinha apreende em fuga e no momento em que é capturada, ainda de sobressalto, põe um ovo. A comoção é geral e a galinha ganha um novo status na família e o direito de permanecer viva na cozinha por tempo indeterminado, talvez pra sempre.
As sensações e os sentimentos da família com relação à galinha referem-se principalmente ao peso na consciência e questionam-se sobre a maldade travada contra uma gestante (perseguições e juras de morte). A própria filha se dispõe a uma chantagem infantil na qual ameaça a todos de que nunca mais irá comer galinha se matarem esta.
O conto finda numa epifania, ou simplesmente no óbvio destino de uma galinha domestica: a panela.


4. ELEMENTOS ESTILÍSTICOS E TEMÁTICOS

O tema é o cotidiano: um dia qualquer, uma família, um almoço, uma galinha... Reflete sobre a realidade social brasileira e mais ainda sobre os sentimento e sensações desta mesma sociedade diante da realidade. Essa condição do espaço social e intimo da família e de seus sentimentos nos faz perceber sua eficácia discursiva através das imagens de deslocamentos de sentidos, ações abruptas e sensações duplas.
Identifica-se neste conto a ‘onisciencia seletiva’ verificada nio quinto parágrafo e a ‘epifania’ encontrada no parágrafo derradeiro. No demais a narrativa se caracteriza pelo alto nível do senso de humor, chegando a lembrar as ‘Comédias da Vida Privada’ de Luiz Fernando Veríssimo.
As comparações que fazem de Clarice Lispector com autores como Katherine Mansfield, James Joyce, Marcel Proust e outros não se verifica facilmente neste conto.


5. CONCLUSÕES E HILAÇÕES

Clarice Gurgel Valente é como umpoço de profundidade desconhecida. Apesar de sua obra não ser de volumes exagerados, seu conteúdo trancende o simples texto literário. Ler e reler Clarice é um conselho e uma recomendação unívoca e unânime entre os teóricos e críticos da literatura.
Escolher um estilo para situar Clarice é considerado um erro cresso. Fazer isso seria como calçar um sapato menos que seu número. Clarice extrapola as classificações e experimenta a linguagem maestralmente como o fizeram mais pra ‘trásmente’ Machado de Assis, Oswald de Andrade, Mario de Andrade e seu contemporâneo Guimarães Rosa. Clarice Lispector é indiscutivelmente um divisor de águas da língua portuguesa.



6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Guidim, Márcia Lígia. Roteiro de Leitura A Hora da Estrela de Clarice Lispector. Ed. Ática, São Paulo, 1998.

Jornal O Povo. Caderno Vida & Arte. 24/12/2006, Fortaleza, CE.

Lispector, Clarice. A Cidade Sitiada. Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1998.

Lispector, Clarice. A Via Crucis do Corpo. Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1998.

Lispector, Clarice. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1998.

Lispector, Clarice. Laços de Família – Contos. Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1993.

Um comentário:

Ricardo disse...

Eu sou acadêmico de Letras, estou no momento fazendo minha monografia e o tema é a comparação entre Clarice Lispector e Virginia Woolf(bem,quando Clarice lançou Perto do Coração Selvagem, ela foi comparada com Virginia Woolf).
Ambas são excelentes escritoras,influenciaram nas respectivas Literaturas,só que o monolóquio interior, se tornou quase uma moda entre os novos escritores...